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Diário de um Canal

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  Não, meu querido, eu não vou falar pra você do canal que separa a ilha da Grã-Bretanha do norte da França, mais conhecido pelos franceses como La Manche, ou, pelos alemães, como Der Ärmelkanal, ou English Channel pelos ingleses, ou ainda Canal da Mancha, no bom e velho português. Isso não vai ser uma aula de história, e eu não sou o Laurentino Gomes. O que me traz aqui é algo mais interessante. Eu vou falar de uma coisa factível, muito mais comum, e muito mais presente. Se fosse você, não tiraria os olhos daqui, mesmo o assunto não sendo, digamos, palatável. Vai que isso acontece com você, hein? Mas vou de diário, fique tranquilo. Como um bom uísque, a coisa desce macio. Falemos sobre dor de dente. Domingo, 04:23 a.m. Acordo com o dente latejando. Parece que tem alguém, em intervalos regulares, enfiando uma faca nele. Não consigo dormir. Vou até a cozinha e mando 40 gotas de Lisador pra dentro. Fico pensando que merda é essa. 10:30 a.m. Sem dormir desde então, sou recebido...

O Dia em quem o Jornalismo foi morto a Facadas

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O jornal Extra matou o jornalismo a facadas com a capa que transformou o assassino do médico Jaime Gold em vítima de duas tragédias anteriores, como se as supostas faltas de família e escola fossem as verdadeiras responsáveis pelo crime e equivalessem a um assassinato. Para o Extra, a escola era a “outra barreira de proteção do menor” assassino, que, no entanto, “também desistiu dele”. O jornal, na prática, legitima moralmente o crime  ao jornal Extra os casos de: -  Suzane Von Richthofen , que estudou no Colégio Humboldt, cursou Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e tinha pais comprovadamente esmerados em sua educação, até decidir matá-los a golpes de barra de ferro, em parceria com o namorado rejeitado por eles e o irmão do dito-cujo. -  Guilherme de Pádua , então ator da maior emissora de TV do país quando decidiu apunhalar até a morte a atriz Daniella Perez, seu par romântico na novela. Os pais do ex-ator que ganhou bolsa...

Cuba-Livre (?)

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       Perguntei como ele estava depois da bebedeira noite passada. Era um amigo não muito acostumado ao álcool. Até me surpreendi quando ele aceitou tomar umas. Em resposta, disse-me que acordou de madrugada com dor de cabeça e azia, ao que indaguei se o mal não teria sido em razão dos espetinhos que ele devorou no fim da noite. É... Pode ser...      Mas a conversa banal me arrastou para o campo das bebidas. Coisa de quem não tem o que fazer, sabe, numa noite fria de domingo. Resolvi até anotar tudo num papelzinho. Quem sabe um dia não vira crônica, hein?      Cerveja/chope: sabe que desde muito cedo aprendi a gostar. Coisa de família. Venho de uma que bebe pra diabo, e que sempre se reunia pra bater papo, rir, comer e principalmente beber, é claro. Lembro-me de uma vez, não sei quantos anos tinha, em que enchi a cara de cerveja, presunto e abacaxi. Bebi tanto que saí falando castelhano. Mas prefiro chope. Bem...

Frase do Dia

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  "Há muitos homens de princípios nos partidos políticos, mas não há nenhum partido de princípios." (Alexis de Tocqueville)

Dez Minutos

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Promessas vazias e esperanças vãs lhe tiram do sério, assim como se atrasar para o trabalho, que acaba sempre sendo ruim para ele mesmo. Quando se é responsável por diversas funções, torna-se fácil perder o foco, até porque o foco dele não é um, mas vários. Mesmo com quinhentas e vinte e sete mensagens para responder, o celular apitando seus compromissos na empresa e a assistente repetindo que ele é funcionário como todos ali, às quatro da tarde ele para o trabalho e tranca a porta, fecha as venezianas que dão para o salão - onde trinta funcionários falam sem parar ao telefone -, fecha a janela e apaga a luz. Dez minutos, devidamente descontados da mísera meia hora que tem de almoço, é do que ele precisa. Em dez minutos, sentado confortavelmente em sua desconfortável cadeira, olhos fechados, de barulho somente um falatório distante, ele reflete a mesma reflexão que lhe acompanha há mais de trinta anos de casa: e se ele não existisse, se não estivesse ali, o que m...

Sexta Treze Feira

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  A sexta-feira 13 não me aterroriza. Talvez, por que muitas outras coisas me apavoram terrivelmente, com ou sem sexta-feira, com ou sem dia 13. Sexta-feira 13, pra mim, não é filme que a gente arrepia antes da cena. Sexta-feira 13 é o que vejo pelo mundo em que transito, e pelo mundo que transita longe de mim. Sexta-feira 13 mesmo é a banalização da vida – que pode ser interrompida nas guerras entre nações, ou nas guerras particulares, numa briga de bar, num shopping, no trânsito cotidiano, numa esquina qualquer, ou em casa de família mesmo.  Sexta-feira 13, pra mim, é gente (ainda) sofrendo fome, frio, e até morrendo, por falta de alimentação e agasalho, em vergonhoso estado de desamparo, diante dos olhares indiferentes. Sexta-feira 13, pra mim, são os sentimentos negativos que nós todos, seres humanos, nutrimos: desrespeito, orgulho, inveja, ciúme, vingança, ingratidão, raiva beirando ao ódio. Também, pra mim, sexta-feira 13 é má interpretação, fofoca, manipulação...

As Verdades Sobre Uma Ou Outra Dose

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   “Melhor morrer de vodca do que de tédio.” A frase acima está no Facebook do estudante Humberto Moura Fonseca, 23 anos, morto depois de beber 30 ou mais doses de vodca no último sábado. Ele participava de uma festa com bebida liberada em uma chácara em Bauru, cidade em que cursava engenharia elétrica. A festa era de estudantes de engenharia. Após divulgação na imprensa, a frase circula hoje pelas redes sociais acompanhada de insinuações de que o responsável pela tragédia foi o próprio rapaz. “Triste ver gente sem metas na vida”, escreveu a usuária Samira Queiroz no Twitter. “E o babaca morreu”, disse Pedro Sprangin na mesma rede social. “Realizou o ‘sonho'”, postou Leandro Capilluppi. “Parabéns, você atingiu seu objetivo”, disse Giovanna Pedroso. Etc, etc. O que pode inspirar alguém a dizer coisas assim? O desprezo pela vida de um semelhante? Ou a perplexidade diante de uma morte absurda? Prefiro ficar com a última opção. Overdose acidental nunca foi tratada como suicí...